Insights

· 5 nov 2026

· Atualizado em 5 nov 2026

· Pedro Chamochumbi

O agro não é um mercado. E esse é o primeiro erro de quem quer empreender no segmento.

Por que compreender as diferenças entre sistemas produtivos pode ser mais importante para o sucesso de uma AgTech do que a própria tecnologia.

Uma tecnologia ou inovação em processo funciona na produção de soja, apresenta bons resultados e começa a despertar o interesse de investidores. A startup mira outras culturas e prepara sua expansão. Mas, quando tenta reproduzir o modelo em outros sistemas de produção, descobre que o problema não é exatamente o mesmo, o cliente possui outra estrutura de custos e a decisão de compra segue outra lógica. O que parecia uma oportunidade de escala revela uma complexidade que não estava prevista no plano de negócios. Essa situação hipotética ajuda a compreender um dos equívocos mais recorrentes do empreendedorismo inovador no agronegócio: tratar o agro como se fosse um único mercado. Essa generalização facilita apresentações, mas compromete investimentos, desenvolvimento tecnológico e estratégias de crescimento.

Ao longo da minha experiência, acompanhando empreendedores, pesquisadores, produtores e empresas que se dedicam a inovar no agro, tenho observado iniciativas que começam pelo domínio preliminar de determinada tecnologia, mas ainda conhecem pouco sobre as particularidades dos sistemas produtivos que pretendem atender. A realidade é que essa distância entre conhecer a solução e compreender o mercado, determina o futuro do negócio.

O agronegócio brasileiro reúne cadeias produtivas, atividades econômicas e modelos empresariais profundamente distintos. O que representa eficiência em uma operação de cana-de-açúcar pode ter pouca relevância na cultura do milho, por exemplo. Uma inovação desenvolvida para grandes áreas mecanizadas pode encontrar barreiras em propriedades menores ou culturas intensivas em mão de obra. Mudam os riscos, as margens, os ciclos de produção, os agentes envolvidos nas decisões e, principalmente, a maneira como o valor é percebido por quem toma a decisão de adotar algo novo.

Na agricultura de grãos, decisões importantes se concentram em janelas de plantio, manejo e colheita. Na pecuária leiteira, a produção contínua exige atenção diária à alimentação, sanidade, reprodução e qualidade. Na cana-de-açúcar, planejamento agrícola, mecanização, logística e capacidade industrial se influenciam mutuamente. Já na horticultura, perecibilidade, frequência de colheita e exigências de comercialização podem determinar o resultado econômico. Cada sistema impõe condições próprias para testar uma solução, demonstrar retorno e chamar isso de inovação.

Uma mesma solução pode encontrar aplicações nesses ambientes, mas dificilmente apresentará a mesma proposta de valor sem adaptações. Um software de gestão, por exemplo, não é adquirido porque oferece mais gráficos: seu valor depende da decisão que ajuda a melhorar, do custo que evita e do trabalho que torna mais eficiente. Para um produtor, a previsibilidade pode ser decisiva; para outro, o principal benefício será reduzir perdas ou integrar equipes.

O próprio Rural IAT, Índice de Adoção Tecnológica do Agro Brasileiro, reconhece essa diversidade ao investigar oito verticais produtivas, de grãos, pecuária de corte, leite, cana-de-açúcar, café, hortifruti, silvicultura e aquicultura. Além de acompanhar equipamentos e ferramentas, a iniciativa procura compreender como a tecnologia é incorporada às propriedades. Afinal, possuir uma solução e utilizá-la de forma consistente são situações diferentes.

Para quem empreende desenvolvendo uma inovação, essa compreensão deveria começar antes mesmo do desenvolvimento do produto ou solução. Precisamos identificar qual problema merece ser resolvido, quem sofre suas consequências, como ele é enfrentado atualmente e quais condições justificariam o investimento em uma alternativa. Uma necessidade pode ser frequente, mas economicamente pequena; outra, menos recorrente, pode comprometer uma operação inteira. Não basta apenas encontrar uma dor: é preciso dimensioná-la, avaliar sua prioridade e compreender a capacidade de pagamento.

Também é necessário identificar quem participa da decisão. O operador utiliza a tecnologia, mas o gerente avalia seus resultados; o proprietário pode assumir o investimento, enquanto o consultor técnico influencia a escolha. Cooperativas e agroindústrias também podem participar do financiamento e da adoção. Tratar todos esses agentes como um único cliente pode produzir uma proposta comercial inadequada, ainda que o produto ou solução funcione perfeitamente. Essa análise amplia nossa compreensão sobre quem empreende e inova no agro. Nem toda iniciativa relevante nasce de uma startup. Produtores, cooperativas, prestadores de serviços, agroindústrias e empresas consolidadas desenvolvem modelos de negócio, transformam processos e encontram novas formas de gerar valor. Uma cooperativa que reorganiza a comercialização de seus associados pode implementar uma inovação importante sem criar uma plataforma inédita. O elemento central está na mudança efetivamente implementada e no valor que ela produz, não no grau de novidade tecnológica.

O comportamento dos produtores reforça essa leitura. A pesquisa Global Farmer Insights 2026, realizada pela McKinsey com 5.500 agricultores em dez países, identificou maior seletividade nos investimentos e valorização de soluções que resolvam problemas específicos, se integrem às operações e demonstrem retorno em condições locais. O produtor não avalia apenas funcionalidades: considera custos, riscos, disponibilidade de pessoas e o impacto de incorporar uma mudança à rotina. Prudência, nesse contexto, não deveria ser confundida com resistência à inovação.

Em Piracicaba, já reconhecida pela presença histórica da ESALQ-USP e pelo movimento Vale do Piracicaba – AgTech Valley, o Parque Tecnológico Piracicaba promove a aproximação entre pesquisa científica, produção agroindustrial, empresas e ambientes de inovação. Oferecendo uma perspectiva privilegiada para enfrentar esse desafio de unir demandas reais, com ciência e tecnologias aplicadas. A concentração de competências cria oportunidades, mas não garante a adoção no agro. É necessário transformar conhecimento em soluções aderentes, conexões em experimentação e resultados técnicos em modelos comerciais sustentáveis. A Inovação precisa precisa ir além de apenas “se pagar”. Isso vale para startups e empresas que inovam em operações consolidadas.

Talvez o próximo salto do empreendedorismo AgTech brasileiro dependa menos da quantidade de tecnologias lançadas e mais da qualidade das oportunidades identificadas e dos grandes problemas resolvidos ou mitigados. Para quem empreende e  inova no agro segmentar bem não significa pensar pequeno. Significa reconhecer onde o problema é mais relevante, onde existem condições de validar e onde o negócio pode produzir resultados consistentes e repetíveis antes de tentar escalar sua operação.

Antes de perguntar como levar uma inovação ao agro, precisamos compreender qual agro queremos atender, que problema pretendemos resolver e por que alguém estará disposto a apostar ou investir nessa solução. Porque, no final, o desafio principal não é apenas fazer uma tecnologia funcionar. É  construir um negócio capaz de gerar valor percebido na realidade de quem produz e vive os desafios do agro.  

Por Pedro Chamochumbi

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