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· 16 out 2026

· Willians Bini

Rastreabilidade e governança territorial: quando a confiança do agro passa a ser medida em dados

Rastreabilidade e governança territorial quando a confiança do agro passa a ser medida em dados

O EUDRcomeça a valer em 30 de dezembro de 2026, o crédito rural já barra operações com irregularidade ambiental e o gargalo está no elo que ninguém vê. Entenda por que a governança territorial virou o centro da competitividade do agro.

Passei boa parte da minha carreira aprendendo uma regra básica da meteorologia: previsão sem observação é palpite. Um modelo pode dizer que vão cair 40 milímetros amanhã, mas só confiamos nele porque, depois, um pluviômetro mede quanto choveu de verdade. A confiança nasce da comparação entre o que se diz e o que se mede.

Essa regra voltou à minha cabeça quando moderei, recentemente, um painel sobre governança territorial e rastreabilidade em um importante evento do agronegócio. Durante uma hora, especialistas de áreas bem diferentes (satélites, pesquisa pública, inovação regional, tecnologia de campo) chegaram, por caminhos distintos, à mesma conclusão: o agro brasileiro não será mais julgado pelo que declara, e sim pelo que consegue comprovar. E uma pergunta voltou várias vezes, com roupas diferentes: e o pequeno produtor?

Este artigo é a minha tentativa de organizar o que ficou desse debate.

A era da declaração acabou

Em 30 de dezembro de 2026, daqui a menos de três meses, passa a valer para grandes e médias empresas o regulamento europeu antidesmatamento, o EUDR. Micro e pequenas empresas têm até 30 de junho de 2027. A regra é direta: soja, carne bovina, café, cacau, borracha, madeira e óleo de palma, além dos derivados, só entram no mercado europeu com prova de que não vêm de áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.

O prazo já foi adiado duas vezes, e muita gente apostou numa terceira. Não deve vir. Em maio de 2026, a Comissão Europeia concluiu a revisão de simplificação e deixou claro que não vai reabrir o texto. Estimou, inclusive, que as simplificações já aprovadas reduzem em cerca de 75% o custo anual de conformidade. A data de corte e a lógica da lei permanecem as mesmas.

O Brasil foi classificado como país de risco padrão, o que significa due diligencecompleta e cerca de 3% dos operadores inspecionados por ano. Para áreas de produção acima de 4 hectares, não basta um ponto no mapa: a exigência é um polígono, com coordenadas precisas.

O dinheiro chegou antes da Europa

Quem acha que isso é problema só de exportador está olhando para o lado errado. Entre 2024 e 2025, o Banco Central recusou ou cancelou cerca de R$ 20 bilhões em crédito rural, em quase 60 mil operações, por falta de conformidade ambiental. Metade desse volume esbarrou em problemas com o CAR.
No setor da carne, a autorregulação dos bancos (a norma SARB 026, da Febraban) já condiciona o financiamento aos frigoríficos à capacidade de provar que não compram gado de áreas desmatadas ilegalmente. Ou seja: em muitos casos, o primeiro fiscal do produtor não vai ser um auditor europeu. Vai ser o gerente do banco, no momento do custeio.

Da porteira para dentro já não basta

Durante muito tempo, sustentabilidade foi tratada como assunto individual: a minha fazenda, o meu CAR, o meu polígono. Só que o risco, para quem compra e para quem financia, é de território. Um frigorífico não consegue garantir que está limpo se a região onde compra está contaminada; um banco não consegue garantir uma carteira limpa em um município sem governança.

É por isso que ganhou força a chamada abordagem jurisdicional, em que governo, setor privado, sociedade civil e produtores trabalham com metas comuns para um estado, um município ou um bioma. O exemplo mais conhecido é a estratégia Produzir, Conservar e Incluir (PCI), de Mato Grosso, lançada na COP21, em 2015, com metas para 2030 que incluem regularizar todas as propriedades no CAR e recuperar 2,5 milhões de hectares de pastagens degradadas.

Aqui, como meteorologista, tenho uma observação. A atmosfera nunca respeitou cerca. Em 2024, segundo o Monitor do Fogo do MapBiomas, o Brasil queimou 30,8 milhões de hectares, 79% a mais que em 2023. A Amazônia respondeu por 17,9 milhões e o Cerrado por 9,7 milhões. A seca histórica, intensificada pelo El Niño, deixou a vegetação pronta para queimar, e três em cada quatro hectares atingidos eram de vegetação nativa.

Um produtor pode fazer tudo certo dentro da porteira e, ainda assim, ver o fogo atravessar a divisa. Quando o satélite mostra uma cicatriz ou uma perda de vegetação numa propriedade, a pergunta seguinte é inevitável: foi decisão do produtor ou foi o clima? Uma série meteorológica local, com chuva, temperatura, umidade e vento nos dias em questão, ajuda a contar essa história com dado, e não com argumento. Não substitui o polígono nem a análise de imagem, mas é uma camada de prova que o agro ainda usa pouco.

O elo que ninguém vê

Na pecuária, o gargalo tem nome: fornecedores indiretos. O frigorífico costuma conhecer bem a fazenda de engorda que lhe vende o boi, mas esse animal pode ter passado por fazendas de cria e recria, muitas em regiões de fronteira, onde estão boa parte das irregularidades. É o que se chama de “lavagem de gado”: o animal entra “sujo” na cadeia e sai “limpo” na última propriedade. A regra europeia olha para todos os locais por onde o animal passou.

Cruzar as bases certas ajuda: o CAR diz onde o animal esteve, a Guia de Trânsito Animal diz para onde foi. Mas as bases são administradas por órgãos diferentes, e o acesso a elas esbarra em discussões sobre a LGPD. O caminho passa por anonimizar o dado comercial sensível e liberar o que importa para a validação ambiental, que é a geografia.

O passo seguinte é sair da rastreabilidade por lote para a individual. O Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos prevê o rebanho inteiro identificado até 2032, e alguns estados, como o Pará, correm para antecipar esse prazo.

E existe uma ferramenta que me fascina por vir da minha área. Pesquisas brasileiras com isótopos estáveis (carbono, nitrogênio, oxigênio) mapeiam as “assinaturas” químicas de cada região. A água da chuva carrega uma proporção de isótopos de oxigênio que varia com a latitude, a altitude e a distância do oceano, e essa marca passa para as plantas e, depois, para os animais. A ciência do clima, no fim das contas, ajuda a descobrir de onde o boi realmente veio, mesmo quando o papel diz outra coisa. A chuva assina o boi.

O paradoxo do que é legal

Há uma tensão que o setor precisa encarar sem ruído. No Brasil, o Código Florestal permite, com autorização, a supressão de vegetação dentro das regras de Reserva Legal, que no Cerrado é de 20% da propriedade. O EUDR, porém, não distingue desmatamento legal de ilegal: qualquer conversão depois de 2020 fecha a porta europeia, ainda que dentro da lei brasileira.

A soja mostra o outro lado dessa moeda. Em 12 de agosto de 2026, o STF reconheceu a constitucionalidade da Moratória da Soja, o pacto privado que veta a compra de soja de áreas da Amazônia desmatadas depois de julho de 2008, e determinou o fim das ações que contestavam o acordo. A mesma decisão validou, com limites, leis estaduais que retiram benefícios fiscais das tradings signatárias. A mensagem é que critérios privados mais rígidos que a lei são legítimos, mas o debate sobre o custo desses critérios está longe de acabar, sobretudo no Cerrado.

E o pequeno produtor?

Esta foi a pergunta que mais voltou no painel, e eu acho que ela define o resultado de tudo isso. Segundo números que levantei para o debate, menos de 10% das fazendas de pecuária no Brasil usam algum sistema digital de gestão. Boa parte do campo ainda funciona na cadernetinha, e a cadernetinha não gera polígono, não conversa com banco e não passa por auditoria.

A saída não é exigir do pequeno aquilo que só o grande consegue pagar. Alguns caminhos apareceram com força: soluções que funcionam sem internet no curral, redução do tempo de registro, imagens de alta resolução e polígonos precisos a custo compatível com a escala da propriedade, e a lógica coletiva, de cooperativas e polos regionais, em que a região inteira sobe a régua em vez de criar ilhas de excelência cercadas por informalidade.

E há uma lição que a meteorologia me deu. A melhor estação é a que registra sozinha, todos os dias, sem depender de alguém lembrar de anotar. Rastreabilidade que depende de papelada no fim do mês falha. A que funciona é a que coleta o dado no momento em que o fato acontece.

Confiança tem preço, e dá para medir

Os números de que falamos (R$ 20 bilhões barrados, 30,8 milhões de hectares queimados num ano de seca extrema, um prazo europeu que não vai ser empurrado de novo) apontam para a mesma direção. A confiança deixou de ser reputação e virou ativo mensurável, com polígono, registro e série histórica.

O Brasil tem argumentos fortes: o país preserva cerca de dois terços do território com vegetação nativa, e parte relevante disso está dentro de propriedades privadas. Mas, na hora de vender, argumento sem prova é previsão sem observação.

O momento não é de recuar diante das novas exigências. É de usar a tecnologia, a ciência e a cooperação regional para que a prova esteja ao alcance de todos os produtores, não só dos maiores. Sustentabilidade sem rastreabilidade é só uma boa intenção, e o mercado deixou de pagar por boas intenções.

Por Willians Bini

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