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· 4 nov 2026

· Atualizado em 4 nov 2026

· Christian Bredemeier

Como a agricultura de precisão e digital pode ajudar em tempos de super El Niño

A agricultura brasileira convive com um desafio cada vez mais estratégico, ou seja, produzir com eficiência e rentabilidade em um cenário de maior variabilidade climática. A perspectiva de um El Niño de intensidade muito forte na safra 2026/2027 reforça a necessidade de antecipar decisões, aprimorar o planejamento e reduzir a exposição aos riscos. Segundo o Painel El Niño, elaborado por instituições federais como INMET, INPE e Cemaden, há elevada probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte no final de 2026, com impactos distintos entre as regiões brasileiras.

Para o agronegócio, isso significa lidar simultaneamente com diferentes ameaças. Enquanto parte do Norte, Nordeste e Centro-Oeste pode enfrentar chuvas abaixo da média e temperaturas mais elevadas, o Sul tem maior probabilidade de registrar precipitações acima do normal, aumentando os riscos de alagamentos, dificultando a realização de operações nas lavouras e aumentando a pressão de doenças, entre outros. Essas tendências não determinam, isoladamente, o resultado de uma safra, mas evidenciam a importância de estratégias capazes de responder às condições específicas de cada propriedade.

É nesse contexto que a agricultura de precisão e digital ganha relevância. Mais do que incorporar equipamentos ou softwares à operação, trata-se de utilizar dados para compreender a variabilidade espacial e temporal das lavouras e orientar intervenções e decisões, melhorando a eficiência no uso dos insumos e recursos. Em períodos de maior instabilidade climática, essa capacidade pode fazer diferença tanto na produtividade quanto na gestão econômica do negócio.

Dados e tecnologia para decisões mais resilientes

Um dos principais benefícios da agricultura de precisão é permitir que o produtor deixe de tratar a área cultivada como um ambiente uniforme. Mapas de produtividade, análises georreferenciadas do solo, sensores, imagens de satélite e sistemas de monitoramento ajudam a identificar diferenças de fertilidade do solo, disponibilidade de nutrientes e água, desenvolvimento das plantas e potencial produtivo. Com essas informações, é possível direcionar os insumos e as operações para onde são mais necessários, reduzindo desperdícios e melhorando o aproveitamento dos recursos disponíveis.

Em cenários de restrição hídrica, por exemplo, o monitoramento da umidade do solo, associado a dados e previsões meteorológicas, pode apoiar decisões sobre momento e quantidade de irrigação, escolha de cultivares, épocas de semeadura e priorização de áreas. Em sistemas irrigados, sensores e ferramentas de manejo permitem ajustar a aplicação de água à demanda das plantas e às condições do solo. Nas lavouras de sequeiro, a análise integrada dessas informações contribui para avaliar riscos e planejar melhor as operações, mesmo sem eliminar integralmente a dependência das chuvas.

No extremo oposto, quando o excesso de precipitação é a principal preocupação, como pode ocorrer no Sul do Brasil, a tecnologia também oferece ferramentas importantes. O acompanhamento das condições meteorológicas, aliado ao monitoramento do solo e ao planejamento das operações mecanizadas, pode ajudar a definir janelas de semeadura, pulverização e colheita. Imagens e sensores permitem acompanhar o desenvolvimento das culturas e identificar áreas com problemas, enquanto sistemas de monitoramento e de suporte à decisão auxiliam na avaliação do risco de doenças, por exemplo.

A aplicação de insumos em taxa variável é outro recurso relevante. Ao considerar a variabilidade dentro de cada talhão, o produtor pode ajustar a distribuição de fertilizantes, corretivos e outros insumos de acordo com as necessidades identificadas. Em uma safra sujeita a condições climáticas adversas, essa abordagem contribui para evitar investimentos desnecessários em áreas com menor potencial produtivo e melhorar a eficiência econômica da lavoura. O benefício, entretanto, depende da qualidade dos dados utilizados, da correta calibração dos equipamentos e da interpretação agronômica das informações.

A agricultura digital também fortalece o planejamento financeiro. Ao integrar dados agronômicos, históricos de produtividade, custos operacionais e informações climáticas, o gestor consegue construir cenários, avaliar alternativas e dimensionar melhor suas necessidades de capital. Isso é especialmente importante para produtores, cooperativas, empresas fornecedoras de insumos e investidores, que precisam considerar a exposição climática na análise de desempenho e de risco das operações agrícolas.

A tecnologia contribui para ampliar a capacidade de antecipação, qualificar decisões e tornar a gestão mais adaptável. Para isso, a adoção precisa estar associada à capacitação das equipes, à conectividade no campo, à integração de sistemas e à assistência técnica. 

Diante da possibilidade de um El Niño muito forte, a agricultura de precisão e digital deve ser entendida como parte de uma estratégia mais ampla de gestão de riscos, onde a combinação entre conhecimento agronômico, tecnologia e planejamento pode ajudar o produtor a enfrentar os extremos climáticos com maior eficiência e previsibilidade. 

Por Christian Bredemeier

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